Este é um texto da seção Offline: saindo da frente das telas, no mundo bio e analógico.
Não me convenço de que a vida off-line virou coisa de luxo. É só visitar os interiores do Brasil para perceber que muita gente não tem acesso à internet e sobrevive. Mais: sequer tem interesse nela, mesmo para coisas que consideramos fundamentais, como PIX, agendamentos de serviços públicos, etc. Para alguns, “inclusão digital” não significa necessariamente benefício, mas burocracia, dependência, golpes e vigilância. Nem todo mundo está rezando para ser salvo pela Starlink.
Pessoas acostumadas com a digitalidade não entendem isso. Não conseguem imaginar que caminhar até um lugar e conversar com um ser humano possa ser mais conveniente do que preencher um formulário online. Nem que experiências coletivas presenciais limitadas e sazonais possam ser mais satisfatórias do que a onipresença da rede. Que a insegurança das cidades seja mais “contornável” do que a online. Que perrengues desconectados possam ser mais engraçados/instrutivos do que posts no Reddit, consumo de memes e piadas em comentários de vídeos.
Historiadores do futuro talvez se perguntem por que aceitamos a monocultura digital, que parece diversa, mas, na verdade, é extremamente homogênea: não interessa qual é o seu nicho, ele precisa ser experimentado como mídia, como conteúdo. E nas mesmas plataformas.


