Vida offline é mesmo artigo de luxo?
Depende para quem você pergunta.
Este é um texto da seção Offline: saindo da frente das telas, no mundo bio e analógico.
Não me convenço de que a vida off-line virou coisa de luxo. É só visitar os interiores do Brasil para perceber que muita gente não tem acesso à internet e sobrevive. Mais: sequer tem interesse nela, mesmo para coisas que consideramos fundamentais, como PIX, agendamentos de serviços públicos, etc. Para alguns, “inclusão digital” não significa necessariamente benefício, mas burocracia, dependência, golpes e vigilância. Nem todo mundo está rezando para ser salvo pela Starlink.
Pessoas acostumadas com a digitalidade não entendem isso. Não conseguem imaginar que caminhar até um lugar e conversar com um ser humano possa ser mais conveniente do que preencher um formulário online. Nem que experiências coletivas presenciais limitadas e sazonais possam ser mais satisfatórias do que a onipresença da rede. Que a insegurança das cidades seja mais “contornável” do que a online. Que perrengues desconectados possam ser mais engraçados/instrutivos do que posts no Reddit, consumo de memes e piadas em comentários de vídeos.
Historiadores do futuro talvez se perguntem por que aceitamos a monocultura digital, que parece diversa, mas, na verdade, é extremamente homogênea: não interessa qual é o seu nicho, ele precisa ser experimentado como mídia, como conteúdo. E nas mesmas plataformas.
Revalorizar o mundo offline também é uma questão de atitude. Desaprender hábitos como o de performar. Não precisamos fazer turismo para postar no Instagram, gastar fortunas em discos de vinil e roupas vintage desconstruídas. Na verdade, essas são práticas de digitalização do offline. Aplicamos as lógicas e objetivos da indústria do entretenimento ao mundo físico. É uma desconexão conectada, internalização do algoritmo.
Experiências fora dos hábitos de consumo de mídia ainda estão disponíveis. São práticas temporárias e únicas, que não cabem na mentalidade de construção de marca ou desenvolvimento de negócios. Estão acessíveis quando reprogramamos o cérebro para percebê-las e respeitá-las em suas características particulares.
São vivências pessoais e concretas. Portanto, não há como fazer uma lista abstrata e ativar o FOMO alheio: “Essas são as atividades que você deve fazer offline, clique aqui.” Para uns, pode ser escalar uma montanha; para outros, se engajar num projeto social, consertar o motor de um carro ou simplesmente respirar.
A única característica comum que consigo imaginar é que são experiências de atenção, quando percebemos como é ter um corpo, vivo, num planeta, com uma mente que muda constantemente. Não precisa nem ser um estado meditativo. Está mais para satisfação, quando não precisamos buscar nada, fingir ser outra coisa, defender ou atacar alguém.
O problema é que muita gente não conheceu a vida essencialmente fora (ou antes) da internet. Ou não está disposta a experimentá-la sem a mediação do Vale do Silício. Mas offline não é ontem, é agora. Não é nostalgia de um passado idealizado, que só pode ser acessado via consumo, colecionismo, simulacro e construção de identidade.
Ainda assim, como alguém que nasceu em 1975, talvez eu tenha certa obrigação de contar como sobrevivíamos e nos divertíamos antes da internet. Não para cultivar o passado, criar uma identidade ou implicar sermos mais espertos do que as gerações atuais – não éramos. Mas é importante mostrar alternativas, ainda que imperfeitas. Causar um espanto: “isso existia, era possível.”
A vida é mais que doomscrolling, consumo de mídia, memes, trends, empresas dos EUA, conversas fiadas nerdificadas… conteúdo. Só esquecemos ou ignoramos essas obviedades.
Enfim, comecei pensando em escrever sobre como eu descobria e ouvia música antes da internet. E sobre algumas redes sociais físicas da São Paulo do final dos anos 1980. Acabei nessa longa justificativa do que pretendo fazer na seção “offline”. Enfim, vamos tentar novamente na próxima semana. Se o mundo físico deixar, claro.


