E não é que Moxie Marlinspike, criador do Signal, resolveu lançar seu próprio agente de IA, só que focado em privacidade? Pois é, chama-se Confer. Então, fui conferi-lo.
A IA criptografada
Toda a interação com o usuário é criptografada. Ao acessar o Confer pela primeira vez, você tem que criar uma passkey, que fica armazenada no seu aparelho ou no seu gerenciador de senhas. Detalhes técnicos nessa reportagem da Ars Technica.
A interface é parecida com a do ChatGPT – e com todas as outras dessa área. Há versões nativas pra Windows, macOS, iOS e Android (mas não pra outros tipos de Linux).
Confer não é o único chatbot com vocação pra criptografia. O Proton lançou o Lumo e o Venice.ai trabalha armazenando informação localmente, sem enviar dados das conversas abertamente pra Internet.
Vários robôs e nenhum me entende
Tá. Mas, afinal, o Confer é bom? Meu teste foi engraçado.
Pedi pra fazer uma análise de estratégia de conteúdo da Texto Sobre Tela. O robô pensou, pensou e simplesmente parou. Sem notificações, mensagens de erro ou ícones de espera. Vai ver, achou o conteúdo entediante e caiu no sono.
Tive de exortá-lo. Voltou à vida, pediu desculpas, e expeliu uma visão superficial do material. Fez algumas sugestões claramente descontextualizadas.
Não é que eu esperasse uma Susan Sontag revirando meu lixo intelectual. Mas, no geral, os robôs leem apenas os últimos dois ou três textos, a página “Sobre” e entendem um pouco dos formatos do conteúdo.
Nisso, talvez reflitam bem a situação dos usuários: apressados, usando o mínimo esforço possível, entregando alguma coisa logo, que pareça alinhada com os padrões e jargões do mercado atual. Como diria Zé Antonio:
Pra quem é tá bom demais.
Por comparação, rodei o mesmo prompt no ChatGPT, no Claude, no NotebookLM e no Gemini. A ideia era ter um senso da calibragem, da “personalidade” inicial de cada produto, como cada robô “pensa” logo de saída, antes que eu redirecionasse a conversa.
ChatGPT é apenas um pouco mais informado do que o Confer, mas também genérico e meio puxa-saco. Claude tem uma abordagem mais formal, “de escritório”: sua análise é mais estrutural e voltada a negócios.
Mas espera aí que a coisa melhora.
Estagiário promissor
O NotebookLM até “entendeu” a TxT. Mas, curiosamente, ficou fixado nos textos mais absurdos, como Civilização Macunaíma e Kama Sutra Biohacking.
Ele sugere que eu me foque em continuar esses assuntos, como se fossem análises teóricas e não humorísticas. Transformar piada em conceito? Não sei.
Já o Gemini fez sugestões mais interessantes, no nível estagiário promissor. Algumas ideias até soam (inicialmente) instigantes, como “O que aprendi ao não comentar o factoide do dia”.
Por mais que desconfie do Google, tenho de admitir que o novo modelo do Gemini faz a lição de casa. O programa pelo menos tenta se aprofundar no conteúdo.
A epidemia dos assistentes virtuais
Então virei entusiasta da IA? Não, calma aí.
Resolvi investigar a Confer (IA criptografada) pelo seguinte: nas últimas semanas, houve uma verdadeira epidemia de lançamento de assistentes virtuais capazes de acessar diretamente os arquivos e as configurações dos nossos computadores.
O Google liberou o Gemini por padrão no Gmail. A Anthropic ajambrou o Claude Cowork em menos de duas semanas. Isso indica que o hype da IA está acelerando ainda mais.
E não é só uma questão de velocidade. É também de intrusividade. Quer dizer, além de lançar produtos mais rapidamente, eles trazem funcionalidades mais arriscadas dos pontos de vista de privacidade e de impacto imediato nos computadores.
O vídeo abaixo mostra um exemplo dos problemas que os early adopters estão enfrentando.
Vamos acender uma vela em gratidão a esses desbravadores youtubers.
Competição maluca
É engraçado ver os techbros tendo que praticar capitalismo. Quando precisam lidar com competição, saem correndo como vacas loucas.
Até mesmo liberam novos padrões polêmicos nos nossos computadores, sem nos consultar. Cabe ao usuário descobrir onde fica o botão de desligar.
O público mais corajoso tenta acompanhar as empresas, deixando um rastro de logins e senhas em produtos que não volta a usar. É o cadastramento fantasma.
Num momento como esse, de intensa ansiedade competitiva e falta de regulamentação, talvez seja a hora de resgatar uma das virtudes (supostamente) brasileiras mais antigas: a capacidade de chegar atrasado.
Ou, pelo menos, vamos fazer backups em massa.

