Este é um texto da seção App vs Ego, que investiga os jeitos malucos como humanos usam tecnologia.
Antes de começar, um esclarecimento: a IA não escreve meus textos. Sou o único culpado pelo slop que você lê aqui. Dito isto, sim, treinei um modelo de linguagem para executar uma das atividades mais polêmicas da história: a caguetagem. Criei um safado que cagueta até com o dedão do pé.
Não é uma simples evolução do copydesk (que já irritava Nelson Rodrigues no século passado), nem corretor ortográfico: é um sistema para detectar meus padrões mais sórdidos, meus argumentos mais flácidos, meus erros mais absurdos, e dedurá-los para mim mesmo.
Configurá-lo foi uma jornada porque, como se sabe, LLMs podem ser puxa-sacos. E elogios explícitos são fáceis de perceber, mas há níveis sutis de polimento de ego e discursos de validação implícita que podem levar um autor (e, claro, o usuário comum) a ficar preso numa bolha de delusão fedida.
Há quem goste e precise disso – quem sou eu para criticar? Mas o risco de tragédia é alto: pequenos favores e facilitações aumentam gradualmente a sensação de relevância e anestesiam a síndrome de impostor. É um alívio imediato. Mas, a longo prazo, nos torna insensíveis às críticas e nuances. Então, alimentamos nossos vieses, viramos crianças mimadas, que acham que o mundo lhes deve alguma retribuição.
Minha intenção era criar uma ferramenta de incentivo à humildade, o que, confesso, é reinventar a roda. Essas ferramentas já existem em profusão, basta estar aberto: caixa de comentários, pesquisa aprofundada e até a própria sensação de inadequação. Mas a cultura da performance nos impede de usá-las, transformando-as em trollagem, mute, block, estatísticas, gamificação e autoajuda meritocrática.
Mas por que testar a IA? Simples: porque sou pobre. Tivesse dinheiro e levasse a escrita realmente a sério, pagaria um editor humano profissional. Se eu não vivesse numa cultura de tanta aceleração e concorrência pela atenção, poderia contar com o interesse e o feedback dos leitores.
Resultado: até agora, as LLMs me parecem parcialmente úteis como simulacro de editor. E ficam melhores conforme aprendo a configurá-las com exemplos concretos, mensuráveis e detalhados. Minha skill do Claude, por exemplo, realmente ajuda o LLM a apontar problemas. Ainda assim, sou eu compilando critérios para me criticar, um cachorro que inventou outro para correr atrás do próprio rabo.
Mais: provavelmente, só sei diagnosticar e me envergonhar disso porque passei mais da metade da minha vida off-line. Fui treinado por uma universidade, passei pelos complexos processos de aprender a interpretar textos e interagir com eles. Supostamente, isso me ajuda a detectar os atalhos e riscos dos LLMs e atualizar meus prompts constantemente.
Esse é o Paradoxo de Configureau: você gasta mais tempo configurando do que utilizando a ferramenta. Perde produtividade ao usar algo que promete aumentá-la. E, se você não pode confiar muito nela, se ela alucina, se produz resultados parciais só para lhe agradar, se cria risco de prendê-lo numa bolha, se ainda gasta muita energia, qual é o retorno do investimento?
De novo, meu editor digital é parcialmente útil. Mas como teste, dele e do meu próprio comportamento. É mais um espelho, ainda que muito menos informativo do que uma só sessão de meditação. Nesta, você enxerga a mecânica, a engrenagem do pensamento. Nas LLMs, você percebe a superfície dos seus hábitos mentais. O que já é uma grande coisa.
Mas, antes de terminar, uma curiosidade dos meus dois personal caguetas: eles querem me convencer a falar mais sobre IA. Aliás, foi assim que este próprio texto nasceu, enquanto eu editava o artigo sobre Ted Gioia e Montaine. Cito Claude Cagueta:
A IA como editor simulacro. É o tema mais original do texto — e o menos desenvolvido. A ideia de treinar um LLM para detectar seus próprios vícios autorais, “colecionando padrões sórdidos”, tem camadas que esse texto não explora: o que acontece quando o editor sintético começa a moldar a voz do autor? Onde está o limite entre crítica e colonização de estilo? Isso é um texto inteiro — e mais alinhado com a missão do Texto Sobre Tela do que a discussão sobre Montaigne.
Outro dia, rascunhei um texto sobre a revelação da identidade de Banksy. Testei editá-lo no Gemini Cagueta. Ele sugeriu o seguinte:
Pergunta para o próximo passo: Você gostaria que eu adaptasse esse texto especificamente para a seção “Eduf-GPT” da sua newsletter, focando em como as IAs facilitam esse tipo de “desmascaramento” de dados?
Tão humano. Parece o desejo de descobrir e revelar a própria importância. Não que eu queira soar a cagueta, claro.

