Ted Gioia foi pego em flagrante tentando associar três coisas perigosas: ensaísmo, autopublicação e individualismo. A prova está nesse texto, no qual o jornalista traça uma linhagem de ensaístas autopublicantes que começa em Montaigne.
Seus ensaios abordavam muitos temas, mas, na verdade, tinham apenas um central: o próprio Montaigne, com todas as suas peculiaridades, opiniões e comentários polêmicos.
Não sei, não sei. O sonho de ser um polímata deve existir desde a invenção da linguagem. Mas, ao tentar opinar sobre tudo, é natural que acabemos falando muito mais sobre nós mesmos. Vem no pacote.
Aliás, também acontece quando tentamos nos focar em um só tema. A diferença é que o leitor e o autor precisam de mais esforço pra detectar a personalidade no meio dos jargões. Não dá pra fugir, falar de si é do sistema operacional humano.
O ensaio pode ser um gênero literário performático. Como não esconde o autor, pode mais facilmente dar o passo seguinte: transformá-lo num personagem. Deve ser por isso que Gioia diz que:
Os ensaios de Montaigne foram um marco na história do individualismo. Portanto, é claro que faz sentido que tenham sido autopublicados. É isso que os individualistas fazem. Eles ficam felizes em trabalhar fora do sistema.
Apenas quando o sistema não está feliz em trabalhar pra eles, é claro.
De qualquer forma, nada garante que o ensaio, em si, seja necessariamente individualista. Basta investigar escritoras. Susan Sontag, por exemplo, ficou conhecida por tentar enxergar a dimensão do outro e a possibilidade da empatia no século 20. Simone de Beauvoir também não parecia interessada em performar.
Pelo jeito, existe um subgênero do ensaio pra autores performáticos em posições privilegiadas. Ainda assim, é possível desindividualizá-los, universalizá-los, ou não seriam lidos até hoje por gente tão diferente.
Já a autopublicação é algo complexo: depende de recursos financeiros e das tecnologias disponíveis. Martinho Lutero, um dos autopublicadores mais famosos da história, se beneficiou das invenções de Gutenberg, não só da sua iniciativa individual.
E uma coisa é publicar, outra, distribuir. Só conhecemos Lutero graças ao poder de uma coletividade. Ele usou o que hoje chamaríamos de efeitos de rede. Ou melhor, o trabalho voluntário dos seus seguidores (outra palavra ainda em voga).
Enfim, quero acreditar que ensaísmo e autopublicação possam servir como alternativas ao individualismo performático. Outra coisa: Substack não é autopublicação, é publicação subsidiada pelo capital financeiro. Mais: por uma empresa sediada nos EUA, sujeita ao governo local.
Nada garantido.
Queimei até a última ponta
Só pra terminar com uma anedota pessoal: no começo dos anos 2000, eu autopubliquei um livro (não vou dizer o nome). De verdade, não com o apoio da Big Tech. Paguei do meu bolso e, felizmente, consegui retornar o investimento já na noite de lançamento.
Meses depois, eu já estava odiando o texto, achando aquilo performático, apressado e mal-acabado. Não hesitei: botei fogo no resto da tiragem, uns 100 livros.
Sabe do que eu precisava na época? Um bom editor que tivesse segurado minha empolgação autopublicante e me ajudado a repensar meu trabalho antes de investir nele. Mas, como diz Gioia, fui “individualista”.
Hoje, pelo menos, tenho um modelo de Inteligência Artificial, que estou treinando pra ser meu maior crítico. Mas isso é assunto pro próximo texto.

