Fita cassete como técnica de sobrevivência
São Paulo, anos 80: quando a cidade era o algoritmo.
Até há pouco tempo, as redes de informação fluíam pelas ruas e becos da cidade. Os influenciadores viviam atrás de balcões, não de telas. Onde quer que você fosse, encontrava um nicho, um underground e possíveis gate-keepers. Os trolls eram orgânicos. Mas nem tudo era ameaçador. Sabendo ler os sinais da cidade, você tinha acesso ao melhor do colonialismo cultural. Ou aprenderia a furar as bolhas. Se estivesse disposto a gastar a sola dos sapatos, claro. A seguir, uma história da São Paulo do final dos anos 1980.
Manhã de sexta-feira. Após uma hora de metrô, subo pelas escadas rolantes da estação República. A neblina é densa e dificulta um rápido reconhecimento do terreno.
Num dia mais claro, eu veria de longe se há alguma aglomeração de pessoas vestindo roupas pretas em frente à Galeria do Rock, na Rua 24 de Maio. Isso decide meu itinerário do dia. Se vejo punks, mais violentos, volto mais tarde. Se forem headbangers, que falam mais do que batem, me arrisco a subir para as lojas de disco. Dependendo do nível alcoólico dessas pessoas, o que tende a influenciar mais do que a filiação a uma tribo.
Recentemente, a TV aberta passou um filme chamado “Warriors”, que glamouriza as gangues de rua de Nova York. Depois disso, ficou ainda mais tenso aparecer na Galeria. Agora, além de evitar furtos, é preciso lidar com adolescentes que vêm para cá (com socos ingleses) para gastar a testosterona e cultuar a onipresente cultura dos EUA. É comum ver punks e metaleiros brigando. Já a estação São Bento é território do nascente hip hop brasileiro.
Sou um sem tribo, uso roupas compradas na feira, que não denunciam a associação a nenhuma gangue, apenas a falta de dinheiro. Classe como armadura e disfarce. Minha técnica de sobrevivência é passar despercebido.
Isso é fácil na entrada da Galeria, quando estou de mãos vazias. É só dizer “sou office boy”. Mas a coisa complica na saída se carrego discos. Aí posso ser parado para uma batida: “o que você tem aí?” Dependendo da resposta e da bebedeira do inspetor, seria potencialmente ligado a uma das gangues e, portanto, punido pela adversária. Ou o disco seria confiscado, caso despertasse interesse.
A saída é comprar fitas cassete piratas, mais fáceis de esconder e mais baratas. Vinil, só quando extremamente necessário. O preço das fitas também incentiva a exploração e a busca de novidades.
Por isso me dou o trabalho de vir semanalmente à Galeria visitar meu traficante de música. Ele se veste como um skinhead e, portanto, atende por “Careca”. Apesar do coturno e das calças militares, está mais interessado em lucro do que em violência. Não posso dizer que seja meu amigo, mas, definitivamente, já conhece meus gostos musicais. Mantém uma loja minúscula, um muquifo coberto de fitas, com capas brancas, que o Careca escreve à mão usando uma caneta esferográfica.
Nelas, geralmente, encontro apenas o nome da banda. Nada garante que teremos os títulos das músicas. O Careca tem os últimos lançamentos das bandas mais obscuras do underground dos EUA, mas quase nenhuma informação, apenas anedotas das cenas. Você que se vire com as revistas importadas ou nacionais, como a Rock Brigade.
Minha ignorância tem um efeito: ouço a música em si, sem entender direito as letras e as filiações políticas das bandas. Por exemplo, costumava ouvir o Murphy’s Law, uma banda de punk-ska. Mais tarde, foi associada ao conservadorismo. Antes disso, para mim, era como ter cachorros latindo ao microfone (literalmente); música instrumental, só que com vocais. Enfim, Murphy’s Law dançou, preciso encontrar outra coisa. É a hora do Careca.
Sigo por uma das laterais da Praça da República até o Largo do Paiçandu. Da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, avisto duas gangues se estranhando. É hora de recalcular a rota. Talvez passar primeiro no Museu do Disco – o que me enquadraria na gangue da MPB. Ver os b-boys dançando na São Bento? Ou, já que estou por perto, ver quais são os últimos lançamentos de softwares (igualmente piratas) na Rua Santa Ifigênia?
Não. Hoje é dia de ir para o sebo do Messias, vasculhar prateleiras empoeiradas. Mas, antes de seguir a pé, é preciso reabastecer no Rei do Mate. Se pertenço a uma gangue, é essa: a do mate gelado com leite.
Este é um texto da seção OffLine: saindo da frente das telas, no mundo bio e analógico.

