Empregos não morrem facilmente
O discurso do fim do trabalho ignora o que de fato nos faz trabalhar.
Um dos gêneros de literatura mais curiosos do século 20 é aquele que declara o fim de empregos quando surgem novas tecnologias. É uma mistura de suspense, horror e economia, baseada em uma interpretação racionalista e mecanicista dessa ciência. Demissões em massa são a parte sanguinolenta da história. E, como nos filmes de terror, para funcionar, é preciso ignorar sutilezas e focar nos gritos.
Não é fácil matar empregos. É que trabalhamos por muitos motivos, nem sempre por dinheiro. Mesmo quando expostos à insegurança financeira.
Sou uma prova disso. Já tive nome sujo por sete anos, vivi na casa de amigos, comendo apenas Hot Pockets duas vezes por dia e sem conta bancária. Minha carreira inteira visou fugir do dinheiro. Meu pagamento era outro: reconhecimento cultural. Nada a ver com fama: respeitabilidade entre os pares. Há décadas, as mudanças tecnológicas tentam me fazer desistir disso. Nunca funciona.
Empregos sobrevivem pelas razões mais absurdas e “irracionais”. O problema é que, às vezes, isso se disfarça de busca por dinheiro. Sou o único que conhece pessoas que trabalham com a mesma compulsão de quem aposta em bets? Se você perguntar por que o fazem, provavelmente ouvirá justificativas econômicas. Não é exclusividade das elites, elas têm mais escolhas (portanto, ainda mais confusão psicológica e social).
A complexidade por trás da criação, manutenção e extinção de formas de trabalhar é um assunto clássico na sociologia. Por exemplo, em 1904–1905, o teórico alemão Max Weber associou o trabalho capitalista com as ideias do protestantismo calvinista. Ou seja, religião, aspirações para outras vidas, confirmação de pertencimento a uma comunidade de escolhidos. Não é apenas uma questão de produtividade ou eficiência.
Em 2013, o antropólogo David Graeber viralizou com o conceito de “empregos de merda“. Propôs que, no mundo corporativo, muitos profissionais são pagos para fazer tarefas que eles — e o autor — consideram inúteis. Porém, ao descrevê-las, mostrou que servem para um fim bastante concreto: manter hierarquias e esconder buracos gerenciais. Eu diria que são alienantes e economicamente desnecessários. Nunca inúteis, porque lidam com aspectos psicológicos e políticos do trabalho.
Décadas antes, o sociólogo Erving Goffman foi mais longe ainda. Entre 1950 e 60, publicou clássicos como Representação do Eu na Vida Cotidiana e Estigma. Sugeriu que nossas interações sociais (incluindo o trabalho) são teatrais. Segundo ele, somos atores que tentam manter a coerência não só dos personagens profissionais, mas também dos pessoais. Evitamos comportamentos que corroam essas narrativas. Criamos postos de trabalho com a mesma finalidade: proteger a ilusão.
De novo, não é somente o dinheiro ou a pulsão econômica que cria, mantém ou extingue empregos. Seria até bom que fosse, haveria menos complexidade gerencial. E, nesse caso, talvez a tecnologia realmente conseguisse superar as mecânicas por trás do trabalho.
Mas ela ainda não tem esse poder. Em seu atual estágio, apenas automatiza e acelera o teatro social. Em muitos casos, quando uma empresa faz uma demissão em massa, é para redefinir suas narrativas, indicar que é eficiente e futurista, além de corrigir erros gerenciais do passado. No entanto, a explicação pública será sempre econômica, claro.
Dito isso, sim, assistimos a uma grande mutação no discurso sobre emprego. É a superfície se renovando. A estrutura persiste ou muda mais lentamente: “precisamos fazer mais, de modo mais eficaz, agora. Não fique para trás.” Mesmas ideias, insira a nova tecnologia no template da desculpa.
Voltando ao meu exemplo, no início, virei jornalista basicamente porque queria receber CDs e livros de graça. O emprego era um jeito de regular a minha insegurança cultural e psicológica. A consequência (mesmo naquela época) era viver sempre preocupado com dinheiro. Eu aceitava essa situação sem titubear. Até porque a validação ilusória dos pares me parecia muito mais lucrativa.
Com certeza, a internet do começo dos anos 2000 mudou o jogo: me afundou mais na minha fantasia. De repente, eu podia baixar qualquer acepipe supostamente cultural. Escrevia sobre o que queria em blogs, sem pedir permissão dos editores e instituições. Eu não deixaria “o jornalismo” morrer, não deixaria “o jornalismo” acabar.
A superfície do meu emprego mudou: fui trabalhar semigratuitamente para portais de conteúdo em troca de “visibilidade” e da promessa de remuneração futura. Depois, para as plataformas de redes sociais. Agora, para alimentar o fluxo dos agentes e dos algoritmos. O hábito de buscar validação cultural permaneceu. O dinheiro foi sumindo ainda mais. Adivinhe: persisti.
Afinal, qual é o real salário dos nossos empregos? Significado? Manutenção do teatro social? Gerenciamento de insegurança? O rendimento de alguém pode ser algo tão subjetivo como não passar vergonha e não ser considerado inútil.
Mesmo que os empregos acabassem efetivamente, encontraríamos algo similar. Ou “pagaríamos” para tê-los de volta.
O dia em que máquinas realmente desmontarem os incentivos psicológicos e políticos por trás do trabalho, aí sim, teremos algo que poderemos chamar de morte de empregos em vez de aceleração do mesmo processo.



Quando comecei a trabalhar, sempre me atrapalhei no fator "ganhar dinheiro" - e até hoje sou péssimo nisso, no como me precificar ou "valorizar". Tal como você, entrei na profissão por um interesse - no caso, ter meu próprio PC sem depender de outros mexendo (sou "suporte básico").
Uma linha de raciocínio que sempre me vem a mente é o fator "comunidade. O que você diz sobre "teatro social", entendo como "procurar fazer parte de algo". Somos pagos para fazer parte deste algo - o capitalismo nesta forma que está funciona assim, o dinheiro servindo como parâmetro de trocas sociais, no que antes tais trocas eram feitas com outras coisas, seja tempo de alguém ou algo de interesse - um objeto ou outra coisa necessária.
Em uma comunidade - seja familiar, um bairro ou similar - acabamos assumindo papéis de alguma forma. A pessoa que conserta algo, ou que prepara algo, ou que informa algo, ou que protege de algo. No capitalismo e quando fora de uma comunidade, este papel é trocado por papel e depende de seu talento. E seja conseguir um "brinde" - um cd, livro, computador ou peça, entendemos também que é parte do parâmetro de troca, dado que as pessoas sempre tentam impor um valor e com isso negociar para a troca. O dinheiro tentou ser um parâmetro. Tal falha pois parâmetros são volúveis conforme a cultura de uma comunidade.
Me pergunto as vezes também se observar os "povos originários" em comunidades "simples" e preservadas e seus comportamentos sociais não nos acabaria nos dando pistas para justamente nos ficar independentes do dinheiro e do capitalismo. Bem, não sou antropólogo.
Perdão qualquer coisa e fica meu agradecimento a ti pelo trabalho e ao Rodrigo Ghedin pela indicação do texto.
que imagem perturbadora :|