Câncer de Trópico 10: Os pombos e os homens
Uma sala de pós-operatório um tanto estranha.
Algumas horas após a cantada do técnico de enfermagem, recebo a mensagem da minha irmã:
“sobe. vc tem que sair pra mãe entrar.”
Na época, os aplicativos de mensagens eram menos populares. Conseguíamos passar horas sem receber notificações e vários dias sem enfrentar debates em grupos de família. As decisões chegavam prontas como um macarrão instantâneo, vindas do Reino Das Pessoas Assertivas. Portanto, quando o texto surgiu na tela do meu celular, eu gozava de uma sublime e angélica ignorância sobre o que tinha sido decidido sobre meu pai.
Minha mãe aparece na porta do quarto e vai me tocando:
“Corre que você tá atrasado.”
“Atrasado pra quê?”
”Pra pegar a carona com a sua irmã. Ela tem que ir trabalhar.“
Saio apressado. No meio do caminho, me lembro de que nem me despedi do meu pai. Volto e digo algo como “até daqui a pouco”. Nesse ponto, o leitor já consegue imaginar a resposta: nenhuma.
Enfim, entro no carro e o ar condicionado me envelopa. A irmã logo descarrega a notícia:
“Du, hoje o pai vai pra cirurgia.”
”Cirurgia? Que cirurgia?”
“Eu e a mãe tivemos uma reunião com os médicos. Eles querem tirar um tumor que tá se espalhando muito rápido.”
Ela deu os detalhes técnicos, mas, na hora, a conexão caiu, como num desses eventos no Zoom. Fato é que ela e a mãe decidiram tudo. Minha tarefa agora seria ir pra casa e dormir. A cirurgia era jogo rápido. Quando eu voltasse, à noite, deveria ir direto pro pós-operatório.
“Mas… o pai não tá em metástase? Por que vão fazer cirurgia?”
”Acho que é pra ver se dá pra fazer alguma coisa.”
”Mas fazer o quê? O pai não vai sofrer mais se tiver que entrar na faca agora?”
“Ele vai tomar analgésico”.


