Câncer de Trópico 9: Flerte no leito de morte
No hospital, alguns olhares são fixos e as interpretações flexíveis.
Quanto tempo faz que o pai da Marcela morreu? Meia hora? Ainda não fomos autorizados a entrar no quarto. Do outro lado do corredor, pela janela, tentamos assistir à movimentação dos médicos. O ritmo deixou de ser tenso e virou burocrático.
De longe, vejo apenas a cabeça e os ombros do meu pai. Sua diligência foi incrível: sequer girou os olhos pra ver o que estava acontecendo, mesmo no calor da hora, com os médicos correndo com o desfibrilador. Ele continua investigando seu teto infinito. Talvez seja uma espécie de compostura, de respeito à privacidade alheia, mesmo que dos mortos. Já ao meu lado, Marcela mira o chão.
Tento conversar e ser simpático, mas faço a mínima ideia de como consolá-la. Não posso abraçá-la, não sei direito o que dizer nessas horas (“meus sentimentos?”). Continuo recitando mantras mentalmente. Mas, na verdade, só quero uma coisa: um minuto sozinho com o falecido. Trinta segundos. Vinte que seja.


