Preservando a diversidade
O que acontece quando aplicamos a lógica da monocultura, que veio do campo, às atividades culturais?
Li, no Manual do Usuário, uma coisa que me deixou intrigado. O editor, Rodrigo Ghedin, pediu que os leitores do fórum do site sugerissem atividades livres de telas. Fiquei me perguntando se já estamos tão absolutamente dependentes de telas a ponto de precisarmos de dicas específicas do que fazer longe delas.
Logo a seguir, o teórico de mídia, Douglas Rushkoff, publicou um texto praticamente sobre o mesmo assunto: nossa relação com o solo, o corpo, a comunidade e as atividades off-line. Em algum momento, ele dispara um discurso sobre ajudar o vizinho, sair pra rua, ser respeitoso, etc. Coisas que, aparentemente, ouviríamos dos nossos pais, quando crianças.
Por que essas ideias soam tão estranhas, quando ditas em sites sobre tecnologia?
É que, de alguma forma, estamos aplicando a lógica da monocultura, que veio do campo, às atividades intelectuais. Ou seja: é o enfraquecimento da diversidade. Menos atividades off-line, menos movimento do corpo, maior controle, menor flexibilidade e resiliência diante de imprevistos.
Nos ambientes on-line, seguimos a lógica dos negócios. Sem pensar. Por exemplo, a pessoa tem medo de começar a escrever porque acha que não “possui” uma audiência – como se todos os artistas e teóricos do passado tivessem começado suas carreiras comprando usuários em fazendas de cliques.
A monocultura vai apagando a lembrança de como é viver na diversidade. Vai sugando toda a energia do ambiente (cognitivo e físico) pra um só objetivo: crescer. E todas as atividades vão ganhando ares de gerenciamento, de negócios: amizades, sexo, diversão e até espiritualidade.
Mas alguém ainda precisa experimentar o prazer de NÃO fazer negócios, de se engajar em atividades que não trazem lucro, nem reconhecimento pessoal, nem diplomas ou medalhas. Nem que seja por 10 minutos por dia. Andar no mato sem um aparelho pra contar estatísticas. Cozinhar sem tirar fotos. Viver por viver.
A monocultura é o que faz perguntas como as do editor do Manual do Usuário e os “sermões” de Rushkoff soarem estranhos. Nos levam a entender o quanto mudamos: “espera aí. Agora é preciso falar sobre essas coisas em sites de tecnologia?” Pelo jeito, é.
Underground
A existência de “undergrounds” é extremamente necessária pra preservar a diversidade cultural. Em algum lugar, precisa haver a apreciação do segredo, da conexão um a um, das piadas internas e da comunidade.
Essa lógica não pode ficar nas mãos apenas da extrema-direita e de ideologias autoritárias. Underground não pode virar coisa exclusiva pra bandidos.
Valeu, Substack
Se tudo der certo, este é o meu último post no Substack. Comecei como um experimento. Fiquei por dois anos. De lá pra cá, o serviço virou uma rede social. E eu já estava me sentindo engessado, substuck aqui. Faz tempo. Então, semana que vem, devo surgir com novidades. Todos os inscritos serão importados automaticamente. Nos vemos por lá.
Manu Chao no Brasil
Você está em São Paulo? Se está, regozijo. É que vai ter show do Manu Chao, no Cine Joia. Já está esgotado, claro.
Talvez você se lembre de Manu Chao. Esteve na moda no começo dos anos 2000, quando encarnava uma versão mais relax e praiana do multiculturalismo anarquista da sua ex-banda, Mano Negra.
Tive a sorte de estar no show gratuito do Mano Negra, acho que em 1992, no Vale do Anhangabaú. Foi incrível. Sam Altman, da Open AI, que anda procurando mais energia pro seus produtos, deveria plugar uns fios no Mano Negra.
A banda viajava de trem pela América Latina, bancava as próprias turnês e até entrava clandestinamente em alguns países. Fazia a festa onde chegava, cantando em várias línguas e misturando ska, punk e o que mais surgisse pela frente.
Era uma versão ainda mais mente aberta da tradição do The Clash. Música pra celebração, pra se juntar e resgatar o prazer de NÃO estar gerenciando um negócio. Chega quem quer, sai quando desejar. No suor, a gente tem um momento de paz.
O Mano Negra nasceu pra tocar em trio elétrico. Até onde sei, nunca rolou. Mas ainda dá tempo, universo. Manifesta isso aí, por favor.
A Internet está mudando?
O empreendedor veterano, Anil Dash, acredita que a diversidade está começando a voltar pra Internet. Segundo ele, já estamos virando o jogo contra as redes sociais e as mentalidades do Vale do Silício.
Lutando contra os algoritmos usando RSS, Blogs e IndieWeb. Podcast com os desenvolvedores Chris Coyer e Dave Rupert.
Se você está querendo sair do mundo dos sites dinâmicos (tipo Wordpress), não consigo imaginar um aplicativo mais simples do que o Publii. Tomara que dure.


Ooops. Manu Chao, com u. Já corrigi.