Vibe coding: vale a pena?
A resposta é complicada.
Este é um texto da seção App vs Ego, que discute os jeitos malucos como humanos usam tecnologia.
Feliz ou infelizmente, a vibe coding chegou para ficar. Os modelos de linguagem estão mais precisos e conseguem produzir código funcional — se você souber configurá-los e checar o trabalho. Ainda que essa prática não seja para leigos, é o suficiente para criar o fenômeno dos aplicativos pessoais. Vamos analisá-lo usando nosso Método Simplificado de Análise Caótica (MESAC). São seis passos interdependentes, contextuais e impermanentes. Já explico.
1. O lado excitante
Aplicativos pessoais são programas muito específicos, que atendem às necessidades de uma só pessoa ou de um grupo reduzido. Nenhuma empresa iria criá-los. Seria muito caro encomendá-los para programadores humanos. Tentar se adaptar a uma solução genérica e comercial seria impossível ou não valeria o esforço.
A partir desse ponto de vista, a vibe coding aparece (ou é vendida) como uma solução de baixo custo. O fenômeno parece libertador, empoderador e excitante. Não é simples assim.
2. Consequências inesperadas
O usuário cria um aplicativo pessoal. Parece magia. Então, ele quer mais. Para isso, precisa desenvolver o hábito de procurar soluções tecnológicas para situações cotidianas. É um esforço para “aplicativizar” sua vida.
As consequências são inúmeras: débito cognitivo, necessidade de gerenciar os softwares criados, pagar mais tokens e assinaturas, assistir a tutoriais para ser mais eficiente no uso do LLM, etc.
Mas vamos nos concentrar em outro fenômeno mais instigante: os aplicativos se tornam uma forma de expressão pessoal. Parecem refletir a personalidade do usuário, seus gostos, sua “criatividade”. Viram softwares de identidade.
Lembre-se: ainda estamos na fase da excitação.
3. Análise das mutações ao longo do tempo
O desenvolvedor passa a desejar compartilhar suas criações, seus bebês app. Então, outro processo começa, que conhecemos dos blogs e das redes sociais: a busca de opiniões, de validação e a “construção de comunidades”. Tudo começa a ficar mais caro, do ponto de vista psicológico, financeiro e gerencial. Mais usuários, mais custos, mais trabalho.
Passos seguintes: “Será que posso transformar isso em trabalho?”, “Preciso contratar alguém para me ajudar”. O desenvolvedor se vê como empreendedor, faz concessões e, eventualmente, coloca anúncios no aplicativo.
É o começo da fase do heroísmo.
4. Fatores invisíveis interconectados
Durante o exercício da vibe coding, uma miríade de fenômenos supostamente invisíveis se concatenam e se influenciam mutuamente. Por exemplo: a IA tem um custo ambiental, consequências sociais, geopolíticas, militares e de segurança. E também delega cada vez mais poder e influência a uma oligarquia de tech bros.
Ao perceber essa complexidade, a pessoa pode desenvolver três tipos de atitude:
Rejeição ao universo caótico e interdependente da IA. Pode até criar uma identidade a partir disso: “sou o neo-ludita, defensor da pureza da tecnologia”.
Apego: “Vamos resolver essa situação com mais tecnologia, mais desenvolvimento, mais poder”.
Ignorância: “Isso é muito complicado, não quero lidar com isso, vou para o ChatGPT”. É a interpretação que o documentarista Adam Curtis dá para o termo “hipernormalização”.
Entramos na fase do desgaste.
5. Saltos de impermanência
É mais ou menos aquilo que Nassim Nicholas Taleb chama de fenômenos “cisne negro”: eventos impactantes inesperados que causam mudanças radicais de trajetória. Guerras, pandemias, desastres naturais, reorganizações políticas, crises econômicas, entre outras.
Embora a impermanência seja o motor dos eventos (micro e macro) históricos, geralmente só conseguimos enxergar aqueles descritos como mais disruptivos. Se um desses acontecer, não há vibe coding ou IA que nos salve dos saltos de paradigmas e narrativas.
Essa é a fase da transformação.
6. Ciclos de florescimento e decadência.
Quem sou eu para saber como a “realidade” funciona? Em todo caso, a metáfora dos ciclos é a mais eficiente para descrever a dinâmica das tecnologias. Estou me sentindo culpado por soar hegeliano, mas é o que temos para hoje: as tecnologias surgem cheias de contradições e acabam parecendo degenerar para dar lugar a outras.
Ainda assim, seus rastros continuam a influenciar o cotidiano. Nada morre definitivamente ou se transforma claramente. É o que chamo de “geriatria tecnológica”: dirigimos um Fusca falando ao iPhone 18 e batemos o carro num poste reformado 20 vezes desde os anos 1960. O “passado” continua a influenciar e pedir atenção a todo momento, de inúmeras formas.
Olhando esse cenário, o incentivo para os três tipos de atitude citados acima é muito sedutor. Eu gostaria de sugerir uma alternativa, mas isso seria hipócrita e contraditório. É que uma análise sistêmica e caótica não pode ser dualista (exemplos: separar local do institucional, solução do problema, realismo da utopia, previsível do imprevisível, etc.). Os fenômenos geram múltiplas consequências em vários pontos de vista. Vibe coding é só mais um deles. Não é nem bom nem ruim, nem evitável, nem inevitável. Além disso, nada garante que poderemos praticá-la em alguns meses.
Não sei, só sei que é assim.
PS — A tendência parece apontar para o uso de aplicativos locais e open source. Mas isso é assunto para outro texto.
PS 2 — Reformei o site Eduf.me. É onde (eventualmente) escrevo sobre outras coisas além da tecnologia.


