Texto Sobre Tela

Texto Sobre Tela

Pais perfeitos, só na memória

Sobre Father Mother Sister Brother, de Jim Jarmusch, e nossa intolerância ao silêncio.

Eduardo Fernandes
jun 24, 2026
∙ Pago
Tom Waits é o pai meio falcatrua de Adam Driver e Mayim Bialik.

Não sou o maior fã de Jim Jarmusch que você vai encontrar na internet, mas fiquei intrigado com seu filme de 2025, Father Mother Sister Brother. Ganhou Leão de Ouro em Veneza e foi elogiado pelo seu minimalismo estético e maximalismo emocional.

São três histórias sobre relações entre pais e filhos. As duas primeiras sobre a presença física: os filhos se sentem obrigados a visitar os pais, e, quando o fazem, percebem-se desconfortáveis e psicologicamente ausentes. Estar juntos impede a comunicação. É preciso lidar — ao vivo — com muitos fatores: expectativas, dinheiro e diferenças geracionais.

A terceira parte é sobre ausência. Quando os pais morrem, viram memória. Então, é mais fácil lidar com eles, via projeções e narrativas pessoais. Assim, a ausência física é mais calorosa e flexível do que a presença. Os objetos dos pais vivos (casas, carros) sugerem burocracia, gerenciamento e contas a pagar. Os dos mortos provocam nostalgia e ternura.

O leitor habitual desta newsletter já deve imaginar que não vou resenhar o filme. Para isso, existem fontes mais competentes. Quero me concentrar num só aspecto dele: o desconforto com o silêncio.

Nas duas primeiras histórias, Jarmusch insiste em mostrar situações nas quais as conversas entre os familiares não fluem. Isso é filmado de um jeito extremamente teatral e esquemático, quase quebrando a quarta parede. Dois segundos de cena e os filhos já estão em pânico ou entediados com a presença do silêncio.

Os personagens mais jovens se mostram menos tolerantes ao silêncio. Parecem obcecados com julgamentos e ocupação mental (e, como era de se esperar, numa das histórias, o celular aparece como estratégia de fuga). Já os pais se mostram mais confortáveis e até compassivos com a inquietude dos filhos.

O silêncio aparece como denúncia da ansiedade, não só da falta de comunicação. Até porque o silêncio é um dos fenômenos mais eloquentes que existem. O leitor já deve ter experimentado momentos confortáveis entre pessoas que têm intimidade suficiente para não precisar conversar.

Jarmusch poderia ter demonstrado igualmente a falta de comunicação pela tagarelice, já que a ansiedade se manifesta ainda mais no excesso de palavras. Porém, a comunicação vai muito além desses dois extremos. Há momentos até em que parecemos apenas grunhir juntos, não falar. E tudo bem: isso também comunica pertencimento e empatia.

Avatar de User

Continue lendo este post gratuitamente, cortesia de Eduardo Fernandes.

Ou adquirir uma assinatura paga.
© 2026 Eduardo Fernandes · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de coleta
Comece seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura