Câncer de Trópico 21: No velório é que você percebe sua cultura
A hora de enfrentar questões práticas.
Talvez essa seja a primeira real reunião de família desde o início da nossa saga no hospital. Os três irmãos estão sentados à beira da calçada, em frente ao setor de cuidados paliativos. A Mãe – que passou as últimas duas horas lidando com parentes e amigos – está em pé, finalmente livre do celular. Quatro amadores aguardam a liberação do corpo pro velório. O falecido da vez é justamente o profissional em detalhes práticos do pós-morte da família.
Irmã: “O Pai pagava jazigo em algum lugar? Jaraguá?”
Mãe: “Não, esse é do Tio-avô.”
Irmã: “Então, fazemos o quê?”
Irmão: “Ué, enterra na Freguesia.”
Ninguém gosta da ideia. “Freguesia” significa um cemitério muito mal cuidado no bairro da Freguesia do Ó, São Paulo.
Mãe: “Ah, não. Muito ruim lá.”
Eu: “Sim, mas é o que temos.”
Irmã: “Acho que não tem lugar. O bisavô e a bisavó estão lá, lembra?”
Eu: “Putz. Então não deve ter espaço. Quem iria saber sobre isso?”
Mãe: “O Tio N, né?”
Irmã: “Liga pra ele.”
Tio N é irmão da falecida avó paterna. Tem mais ou me…


