Texto Sobre Tela

Texto Sobre Tela

National SS-8000: o superapp analógico

O erro de buscar uma vida sem defeitos.

Eduardo Fernandes
mai 12, 2026
∙ Pago
O SS-8000 em toda sua glória.

Este é um texto da seção App vs Ego, que discute os jeitos malucos como humanos usam tecnologia.


Qual foi a primeira tecnologia que você hackeou, que quis modificar, usar de jeitos não previstos pelo fabricante? A minha foi o National SS-8000. Na época, era chamado de 3 em 1, porque juntava rádio, gravador de fitas cassete e toca-discos. Na verdade, também funcionava como amplificador de guitarras. Um superapp analógico.

O National SS-8000 foi lançado no Brasil em meados dos anos 1970. Era um desses aparelhos feitos para durar: madeira pesada, alumínio escovado e plástico resistente. Era um produto luxuoso, para ser visto na sala. Mas eu, adolescente, não sabia dessas coisas e o usava de maneira um tanto arriscada. Ligando um cabo P2 da saída de microfone para a auxiliar, eu conseguia duplicar o sinal de som: podia ouvir duas músicas simultaneamente, vindas do toca-discos e da fita.

Eu usava essa estratégia para criar experiências sonoras, colagens, misturas de batidas, etc. Mas minha principal obsessão era tocar duas versões da mesma música. Como os sinais da cassete e do vinil chegavam ao amplificador com diferença de milissegundos, era possível criar vários efeitos, como delay, flanger e chorus. Então, eu transformava os discos da família em versões robóticas ou espaciais.

Era um uso arriscado porque poderia ter causado uma microfonia e queimado o aparelho. Não sabia; o importante era inventar meus próprios shows experimentais. Mais que isso: eu utilizava fones de ouvido como microfones, o que tirava um timbre específico. Às vezes, selecionava uma música instrumental, inventava uma letra, cantava em cima, gravava na fita e levava para a escola, dizendo que aquilo era a “minha banda”. Mentia de propósito, sampleava sem saber.

Mais tarde, uma das caixas de som parou de funcionar. Não me dei ao trabalho de consertar: ouvia discos “pela metade”, o que os modificava radicalmente. Em algum momento dos anos 1980, o Guns N’ Roses lançou o álbum Appetite for Destruction. Os dois guitarristas do grupo raramente tocavam em uníssono. Mas eu só ouvia a parte do Slash. Então, qual foi minha surpresa ao ouvir novamente o disco completo em estéreo, tempos depois.

Esse é o valor do erro, do uso inesperado, da exploração do bug como feature e da feature como bug.

Avatar de User

Continue lendo este post gratuitamente, cortesia de Eduardo Fernandes.

Ou adquirir uma assinatura paga.
© 2026 Eduardo Fernandes · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de coleta
Comece seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura