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Anticuradoria

Não me venha com engajamento

O cansaço das técnicas de marketing digital.

Eduardo Fernandes
jan 06, 2026
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Raramente consigo adaptar meus interesses a datas. Assisto a filmes depois do lançamento, frequento meus próprios festivais (o último foi sobre a cineasta Agnès Varda), releio, ignoro tendências e compro coisas de segunda mão.

Não é que eu seja mais esperto do que os caçadores de hype. Sou é preguiçoso e assíncrono por natureza. E, afinal, por que deveria me sincronizar ao fluxo de conteúdo? Não sou distribuidora de cinema, agência de marketing, nem empresa de mídia.

Será só comigo? Nos últimos anos, parece que parte dos nossos cérebros começaram a rejeitar naturalmente as várias técnicas de engajamento e de impulsionamento de consumo que vínhamos aceitando como comuns durante o Século 20.

Como as listas de fim de ano, por exemplo. Hoje, causam mais estresse do que prazer, é só mais conteúdo pra colocar na fila, mais dados pra processar. Os robôs que lidem com isso. Antes, ainda dava vontade de zapear pra ver se alguma “novidade” interessava. Agora, deixa pra lá.

Outra: os títulos caça cliques. Exemplos: “Precisamos conversar” (com a cara depressiva do influenciador no thumbnail do vídeo), “Está na hora de mudar” ou “Esse é o melhor aplicativo de 2025”, “Essa técnica mudou minha vida”.

No começo, eu caia como um patinho. Hoje, é como se eu tivesse um instinto de aversão. Não clico até por birra. É quase como receber uma ligação de telemarketing. Filtros, bloqueios, barricadas, cachorro bravo, leão de chácara na porta.

Demorou, mas parece que estamos começando a desenvolver anticorpos ao engajacionismo (eu diria também ao conteúdo vindo dos EUA, mas esse é assunto pra outra hora). Nem é nada tão racional e estruturado. É só o poder da saturação, do saco cheio.

O problema é que usamos o mesmo hábito da ativação dopamínica pra procurar outra coisa. Aí sentimos a nostalgia de títulos realmente instigantes como Cem Anos de Solidão, ou até dos humildemente informativos como Confissões, Guerra e Paz. Ah, as singelas capas de livro feitas em tipos móveis. Ah, aquele vinil empenado e cheirando cachorro molhado.

Essa é a porta de entrada pro mercado vintage de luxo. A transferência de hypes. O desejo trocando de roupas. A única coisa que nunca tentamos, a coisa realmente radical, é o contentamento. Ou suas formas mais domesticadas: reúso, reciclagem, reparação de equipamentos, releituras, deixa como está, etc.

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