Ferramentas de poder
Por que não respeito computadores como respeito motosserras?
São 9h da manhã nas montanhas de Cazadero, no norte da Califórnia. Uma neblina densa cobre a floresta. Nessa época do ano, normalmente o sol já estaria forte e o ambiente seco. Sentiríamos o cheiro das gigantescas redwoods. Mas hoje a umidade nos leva a focar na experiência tátil dos pés na grama morta, úmida e vermelha que cobre o terreno.
Eu e mais três voluntários descemos de uma caminhonete bem no estilo estadunidense: quase um tanque de guerra. Da caçamba, descarregamos serras de mão, podões e uma estranha mistura de rastelo com enxada chamada McLeod. Se cada ferramenta tem algum tipo de “personalidade”, essa, por causa do nome, parece um tio gringo distante. Pudera: foi inventado em 1905 por Malcolm McLeod, um guarda florestal da Califórnia.
Posiciono no chão uma pesada mala de lona. Dentro dela estão as temidas power tools. No nosso caso, pequenas serras a bateria. Não são ferramentas para manejo casual; exigem concentração e respeito. Abro o zíper com cuidado. Confiro as travas de segurança e me certifico de que as baterias estão desconectadas. Não é exatamente uma boa ideia ligar uma serra acidentalmente.
Suas irmãs maiores, as motosserras, demandam cerimônias mais elaboradas. Até roupas especiais, feitas com um tecido que se desfaz ao toque da lâmina e enrosca no mecanismo, travando a corrente antes do massacre. Nossas serras são menos dramáticas, mas algo no cérebro produz um estado de atenção. Não é medo nem paranoia. É respeito.
Apesar de estar perto do Vale do Silício, quando venho para a Califórnia, me desconecto do mundo dos computadores e entro no das florestas. É um trabalho arriscado, fisicamente exaustivo, que lida com fogo, terrenos escorregadios e plantas venenosas. Todos vestimos capacetes, luvas grossas de couro e botas pesadas.
Sentindo a umidade de hoje, ninguém diria que este é um lugar sempre ameaçado pelo fogo. No Padmasambhava Peace Institute, os moradores passam o ano inteiro prevenindo incêndios florestais. O local é uma estação de bombeiros voluntários, mantida por uma geração de californianos que já está beirando os 70. Há algo que os une: o cuidado com as ferramentas.
Enrolar uma mangueira não é algo trivial. Tudo tem técnica e visa preservar os equipamentos. As pessoas sabem não só repará-los, mas também limpá-los e armazená-los adequadamente. E funciona: alguns dos caminhões devem ter a minha idade e seguem rodando. O respeito não vai apenas para as máquinas capazes de ferir.
Toda ferramenta tem poder. No mundo físico, existe uma relação cuidadosa com ela. Anualmente, quando me vejo praticando os rituais dos bombeiros, pergunto-me: por que não é assim também com as ferramentas digitais?
Uma tecla pode causar prejuízo financeiro, psicológico e até geopolítico. Algumas dessas ferramentas estão mudando o mundo e o imaginário. No entanto, trabalhamos com elas de um jeito casual. É como se fossem a anti-power tool.
O máximo de ritual de segurança digital é autenticação de dois fatores. Quem é que, antes de abrir uma delas, até mesmo uma IA, faz uma pausa e assume a mesma responsabilidade que assumiria diante de uma serra de mesa?
Só respeitamos ferramentas que causam estragos sanguinolentos. As consequências das engrenagens digitais são invisíveis e rápidas, embrulhadas em marketing exaustivo, e nos impedem de pensar.
Quando o hype digital se dissipar, é possível que também criemos rituais de respeito e segurança antes de usar essas ferramentas. Sentiremos um frio na barriga semelhante, checaremos as travas de segurança. As próximas gerações podem acabar desenvolvendo o respeito pela engrenagem digital.
Hoje isso soa ridículo e até paranoico. Mas imagino como foi a experiência das primeiras pessoas feridas por arados. Em que momento se entendeu o poder da ferramenta? Como se desenvolveu o estado de alerta que hoje nos parece automático? No futuro, espero que a gente sinta o mesmo frio na barriga antes de apertar a tecla Enter.


