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3 teses

Fake it till you become a faker

Ouvi um podcast sobre consciência e terminei com uma crise de consciência.

Eduardo Fernandes
mar 18, 2026
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Michael Pollan, que narra suas tentativas de se aprofundar nos assuntos..
Michael Pollan, que narra suas tentativas de pelo menos tentar se aprofundar nos assuntos.

3 teses sobre conversa fiada

Outro dia, ouvia um famoso podcaster norte-americano, que se apresenta como um polímata, multicurioso. Ele conversava com o escritor Michael Pollan, que lançou recentemente um livro sobre consciência, assunto que me interessa muito. Lá pelos 20 minutos de programa, eu desisti: “por que diabos perco meu tempo com isso?“

O programa era uma sucessão velocíssima de especulações e generalizações sobre temas controversos e complexos. Alto potencial de desinformação. E o que mais eu esperava? Aquele podcast foi desenvolvido pra entreter, não pra debater ciência. Mas que tipo de entretenimento é esse? Por que consumo isso?

Seguem minhas três hipóteses sobre o assunto:

1. Nerdificação da conversa fiada

Nos últimos anos, a conversa fiada ficou cada vez mais nerd. Você pergunta: “Será que vai chover?” Recebe um pseudo boletim meteorológico, baseado em informações vagas, que parece correto, mas sem as nuances e contextos. Quase ninguém mais tem coragem de dizer um simples: “parece que vai”.

Esse fenômeno depende da simplificação do discurso especializado. O melhor exemplo é aquele tipo de programa de TV no qual um especialista é convidado pra quase uma armadilha: lhe dão 5 minutos pra explicar a pesquisa de uma vida inteira. Depois, os âncoras fazem comentários espirituosos ou indignados.

Aos poucos, nos acostumamos com esse formato do jornalismo de entretenimento. E o levamos pra outro nível.

2. Conversafiadização estrutural

Com a Internet, o jornalismo de entretenimento foi “democratizado”. Saiu do universo da mídia e virou uma prática cotidiana. Não só pros influencers e criadores de conteúdo, ela surge nos grupos de WhatsApp, nas redes sociais, nos jantares de família.

Você está comendo uma pizza e, de repente, alguém comenta sobre peptídeos, soando como um médico com 20 phDs. Pior: a pessoa acredita que sabe mais do que o especialista – afinal, esses estão escondendo algo, são controlados pela indústria farmacêutica.

Isso é o que chamo de conversafiadização estrutural: é um ambiente que junta três coisas:

  1. A valorização da performance e da simulação do conhecimento.

  2. A gamificação da vida, cheia de metas, números, comparações, consumo mecanizado e propensão ao FOMO.

  3. O simulacro do discurso ativista, do jornalismo investigativo e de ficção paranoica no estilo thriller.
    Assim, há um incentivo pra competição de capital cultural: sou mais esperto do que você, conheço as fontes mais “verdadeiras”. E consigo provar isso em 2 minutos.

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