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Câncer de Trópico

Câncer de Trópico 8: Choques de ignorância

O acompanhante de pacientes é um eterno confuso.

Eduardo Fernandes
jan 11, 2026
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Dalva parece exausta. Pelo jeito, foi a pessoa mais requisitada da clínica masculina durante a noite. Mais como pacificadora e profissional de relações públicas do que como técnica de enfermagem. O que os pacientes e acompanhantes realmente queriam era informação. Ou melhor, uma informação: a garantia de que o resto da noite seria pacífica.

Mesmo cansada, Dalva tem o mesmo estilo de comunicação saltitante do resto dos auxiliares de enfermagem. Eles parecem estar sempre empolgados e energéticos. Também fazem questão de dizer o nome do paciente inúmeras vezes a cada frase.

“E aí, seu Osvaldo? Tá mais calmo, seu Osvaldo? Deixa eu ver esse braço, seu Osvaldo!”

Dalva refere-se ao senhor esquelético amarrado na cama. Ele estica um dos braços, cheio de hematomas.

“Acho que a gente usou todas as veias dos seus braços, seu Osvaldo! Vamos ter que colocar um acesso em outro lugar, tá, seu Osvaldo?“

Falando assim, parece que ganhou na loteria. E funciona: o homem não reclama. Mas parece tão ou mais esgotado do que a Dalva.

Resolvo voltar pra minha meditação. Pego um pedaço de brocado que embrulha uma série de papéis soltos. Noto os olhos curiosos de Dalva. Então me curvo, como se isso fosse o suficiente pra esconder os papéis. Dalva não se aguenta:

“O que é isso que você lê a noite toda?”

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