Câncer de Trópico 8: Choques de ignorância
O acompanhante de pacientes é um eterno confuso.
Dalva parece exausta. Pelo jeito, foi a pessoa mais requisitada da clínica masculina durante a noite. Mais como pacificadora e profissional de relações públicas do que como técnica de enfermagem. O que os pacientes e acompanhantes realmente queriam era informação. Ou melhor, uma informação: a garantia de que o resto da noite seria pacífica.
Mesmo cansada, Dalva tem o mesmo estilo de comunicação saltitante do resto dos auxiliares de enfermagem. Eles parecem estar sempre empolgados e energéticos. Também fazem questão de dizer o nome do paciente inúmeras vezes a cada frase.
“E aí, seu Osvaldo? Tá mais calmo, seu Osvaldo? Deixa eu ver esse braço, seu Osvaldo!”
Dalva refere-se ao senhor esquelético amarrado na cama. Ele estica um dos braços, cheio de hematomas.
“Acho que a gente usou todas as veias dos seus braços, seu Osvaldo! Vamos ter que colocar um acesso em outro lugar, tá, seu Osvaldo?“
Falando assim, parece que ganhou na loteria. E funciona: o homem não reclama. Mas parece tão ou mais esgotado do que a Dalva.
Resolvo voltar pra minha meditação. Pego um pedaço de brocado que embrulha uma série de papéis soltos. Noto os olhos curiosos de Dalva. Então me curvo, como se isso fosse o suficiente pra esconder os papéis. Dalva não se aguenta:
“O que é isso que você lê a noite toda?”


