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Câncer de Trópico 7: Faxina Radical

Como interromper uma boa noite de sono no hospital.

Eduardo Fernandes
jan 04, 2026
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Pelo jeito, já é noite. É só uma hipótese. Não se vê luz natural no quarto 8 da clínica, a única janela dá pra uma parede de reboque envelhecido. Os outros acompanhantes se contorcem nos sofás azuis, tentando dormir.

No fundo da sala, eu e meu pai continuamos na mesma: imóveis, ele olhando pro teto, eu, pra parede. O que se passa nas nossas cabeças? Na dele, não sei. Na minha, melhor deixar pra lá. Eu apenas ouvia o zumbido grave dos canos do hospital se misturar com o murmúrio da minha recitação de mantra.

O sono bate. A cabeça pesa e cai pra frente. Acordo muito alerta, com a percepção aguçada. A área do coração parece ter levado um choque e a respiração acelera. Mas isso dura apenas alguns segundos. De volta pra prática. O sono volta ainda mais forte. Fica cada vez mais difícil garantir que, afinal, estou acordado. O quarto já está alucinatório e onírico: se contrai e se expande, como se as paredes respirassem.

Ouço a voz do meu pai. Pulo do banco imediatamente, cambaleando em sua direção. Seria a hora da Nossa Conversa, da Lavagem de Roupa Última, do Momento de Redenção?

“Du”, sussura meu pai.
Me encosto na cama, já preparando meu discurso de catarse.
”Tô com sede”, ele responde. Meu cérebro volta pro modo prático.
“Sede? Tá. Já volto”.

Passo pela porta e vejo o senhor esquelético amarrado na cama. Ele dorme o sono inocente dos sedados. O do seu acompanhante parece estar ainda mais pesado.

Saio pro corredor, procurando um bebedouro ou algo assim. Avisto o equipamento, logo ao lado do quarto seguinte, mas não consigo conter a curiosidade de ver o que acontece no resto do andar.

O lugar está o mais silencioso que um hospital pode ficar: algumas vozes ao fundo, passos de enfermeiros, bipes de equipamentos. As portas dos quartos estão abertas. Alguns acompanhantes permanecem acordados.

De longe, avisto uma figura familiar, que usa um jaleco. Era o tal “Psi”. Ele está com a mesma expressão de quando o encontrei ontem (ou hoje, sei lá): aquela de político em campanha, que cumprimenta todo mundo, carrega crianças e come pastel engordurado com caldo de cana.

Psi brinca com um homem vestido de cinza:

“Por que não dá dormindo? Sua mulher te expulsou de casa? Você tem mesmo que fazer isso agora?”

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