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Câncer de Trópico

Câncer de Trópico 6: O quarto do pânico

Uns querem uma cama. Outros fugir dela.

Eduardo Fernandes
dez 28, 2025
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Três ou quatro da tarde do mesmo dia. Mas não importa. Pra mim, já é o dia seguinte. A batida do meu novo ritmo circadiano está mais pra maracatu do que pra valsa. A missão é dormir algumas horas em casa, no começo da tarde, depois virar as noites no hospital. Enquanto isso, tentar encaixar as práticas do retiro.

Até agora, meu retiro era dividido em 4 sessões diárias de prática. No total, eram 11 ou 12 horas de meditação. Em cada sessão, eu cumpria (algo parecido com) uma lista de tarefas.

Parece puxado, mas não. É extremamente reconfortante ter uma rotina estrita. Por um lado, você se sente no filme Feitiço do Tempo (Groundhog Day). Por outro, a repetição produz um senso de estabilidade durante o processo (às vezes turbulento) da observação da mente.

Seja lá como for, de volta ao hospital. O corpo se adapta novamente ao ar condicionado e aos odores do prédio. O recepcionista tira levemente os olhos dos meus documentos e diz: “você é o quê?” Não sei, mas respondo: “filho do paciente”. Funciona: “Quarto 8, Clínica Masculina”. Então agora temos um quarto!

Descendo pelo corredor, imagino meu pai num quarto antigo, cinzento… e individual. Mas, ao chegar lá, encontro algo um tanto diferente.

Três camas, cada uma encostada numa das paredes. Deitados nas estruturas metálicas, os respectivos pacientes. Em torno deles, os acompanhantes ocupam poltronas longas e azuladas, que lembram assentos leitos dos ônibus velhos do interior do Brasil. Meu pai estava na cama do fundo, olhando pro teto. Era a única pessoa em silêncio ali.

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