O sol ferve o cemitério da Freguesia do Ó. Em busca de alguma sombra, os quase 100 participantes do velório se aglomeram numa pequena sala. A cacofonia de vozes e risos contrasta com a expressão serena do meu Pai no caixão. É a nossa segunda oportunidade de nos despedirmos dele (a primeira foi no hospital). Deveria ser uma sessão curta, mas ela se arrasta por mais de duas horas. Tanto que os familiares do próximo defunto já esperam na porta. São Paulo tem fila até pra morrer.
A Tia I parece incomodada com a demora:
Tia I: “Cadê o padre?”
Mãe: “Ah, deve estar chegando, né?” Ela pergunta, olhando para minha Irmã.
Irmã: “Padre? Eu tinha que chamar um padre?”
Mãe: “Ué, não arranjam tudo na funerária?”
Irmã: “Não me lembro de terem mencionado um padre. Du, você ouviu alguma coisa?”
Eu: “Não. Eu tava olhando os caixões. Cada coisa estranha.”
Mãe (pra Irmã): “Ah, como é que você esqueceu disso?”
Irmã: “Por que eu tenho que resolver tudo?”
O Irmão continua calado.
Tia I: “Afe, Maria… Vou cuidar disso.”
E…


