
A gangue de quatro médicos chega no quarto acompanhada de uma enfermeira. Quase que numa coreografia, os cinco olham pro meu companheiro de quarto e não conseguem esconder expressões de asco. Faz horas que o rapaz dorme imóvel, em posição fetal. O médico mais velho olha pros alunos e começa um discurso em staccato:
“Sr. Moisés. Sobrenome desconhecido. 25 anos. Entrada ontem. Registrado como pessoa em situação de rua. Aparentemente, foi agredido por um grupo. Intoxicação aguda por etanol, ataxia, disartria e nistagmo.”
Os termos técnicos continuam por mais alguns minutos. Minha tradução simultânea apenas interpreta alcoolismo, hematomas e confusão.
Logo, a enfermeira se destaca do grupo e se aproxima da bomba de infusão ao lado da cama do meu pai. Ela conecta uma bolsa de plástico fosca um tanto diferente das que vi até agora. Essa tem logotipos e parece ter sido desenhada pra ser vendida em supermercados. A enfermeira toca levemente o ombro do meu pai:
“Esse aqui é o seu café da manhã, tá? O almoço também. A partir de agora, nada de comida sólida.”
Ele sai do transe e diz, num tom de voz fraco:
“Nem água? Tô com sede.”
“O Sr. pode só molhar a boca, mas não pode beber nada.”
Eu e meu pai nos olhamos, confusos. Tento confirmar:
“Como é? Só molhar a boca?”

