Câncer de Trópico 14: Quem decide como sofrer?
Choque de ideologias nos corredores do hospital.
Toca o celular: é hora da troca de turno de acompanhante. Dessa vez, o atraso foi só de uma hora e meia, quase no limite do horário de visitas. Minutos depois, minha mãe surge no quarto.
“Tudo bem nessa noite, Du?”
“É. Melhor. Parece que a metadona começou a fazer efeito. O pai está dormindo, pelo menos.”
“E você, dormiu um pouco?”
“Você não me criou pra morrer no front?”
A mãe sorri e começa a tirar coisas da mochila, sem me olhar. Doces, chás, um pequeno cobertor. Fica de costas. Conheço esses movimentos evasivos: ela está desconfortável com alguma coisa.
“O que foi, mãe?”
“Vai logo, Du, você vai perder a carona. Sua irmã tem que trabalhar.”
“Os médicos vão chegar daqui a pouco pra avaliação.”
“Eu sei.”
Coincidência ou não, Dalva passa pelo corredor, aponta pro meu pai e diz: “A gente vem buscar ele daqui a uma hora, tá?” A mãe concorda com a cabeça.
“Buscar pra quê, Mãe?”
“Pra radio.”
Ela nota meu silêncio e decide me informar: ”Os médicos querem que ele faça uma sessão de radioterapia.” Levo a Mãe pra um canto e sussurro, indignado: “Mas o câncer não tá em metástase? Já fizeram uma cirurgia que acabou tirando os movimentos da parte debaixo do corpo dele, agora ele tá com uma sonda, nem consegue mijar mais… e vamos fazer uma radio?”


