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Câncer de Trópico

Câncer de Trópico 13: a desfalização do falo

O corpo como uma série de encanamentos.

Eduardo Fernandes
mar 01, 2026
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Atenção: este texto contém descrições gráficas de partes íntimas do corpo masculino.

Os corredores do hospital parecem ainda mais confusos do que o costume. Enquanto o técnico de enfermagem empurra calado a cama do meu pai em direção à clínica masculina, não consigo parar de pensar sobre a crescente mancha no lençol. Por que o técnico disse que aquilo é um mau sinal? Faço o meu melhor pra não especular.

Manobramos a cama várias vezes pra conseguir entrar por uma porta estreita. Estranhamente, o quarto está vazio. Será que teremos privacidade dessa vez? Enfim, temos agora, melhor aproveitá-la:

“Você disse que a mancha é coisa ruim.”
“É. Mau sinal.”, o técnico responde casualmente.

Quando você é o acompanhante de alguém com metástase, que reclama de dor, no processo de troca de remédios e que mal saiu de uma cirurgia, qualquer expressão negativa gera um fluxo de pensamentos aflitivos.

“Mau sinal significa o quê?”
“Que vamos ter que trocar a fralda dele de novo.”

Sinto alívio, raiva e culpa ao mesmo tempo. Culpa por ficar com raiva. Engulo seco, e tento ser diplomático:

“Quando você disse mau sinal, eu pensei que era pra ele.”
“Ah, desculpa. Mau sinal pra mim, que vou ter que resolver isso faltando cinco minutos pra encerrar meu turno.”

A raiva tenta invadir o palco, mas seguro ela na coxia. Por sorte, uma figura familiar vem se aproximando.

“Ah, lá vem a Dalva. Acho que dessa eu escapei.”, diz o técnico.

Dalva entra no quarto e abre um sorriso:

“Eita. É o budista!”
“Tá vendo? Você tem dívida cármica comigo.”, brinco.

O técnico passa a tarefa da limpeza pra Dalva e some. Ela me olha com certa desconfiança:

“Você quer me ajudar?”
“Ajudar no quê?”
“A limpar, uai.”
“Vamos lá.”
“Seu pai é pesado, vou avisando.”

Dou de ombros e me aproximo da cama. Meu pai está com uma cara horrível. Pergunto se está com dor. Ele apenas comprime as pálpebras. Entendo que a coisa está feia. Dalva reaparece com um kit de roupas de cama e uma fralda nova. Ela levanta o lençol e o cheiro forte de fezes captura minha atenção.

É a primeira vez que troco a fralda do meu pai. Quer dizer, a primeira vez que troco uma fralda, já que nunca tive filhos. Até agora, os enfermeiros sempre me convidavam pra sair do quarto nesses momentos.

Dalva me pede pra ajudá-la a colocar meu pai de lado. Ao virar seu corpo, noto que suas costas estão cheias de feridas. Mais tarde me explicariam que elas se chamam escaras e são consequência de ficar muito tempo deitado. Me vejo obrigado a contemplá-las por alguns minutos, enquanto mantenho o equilíbrio do corpo do meu pai.

Dalva troca a roupa de cama sem tirar o paciente de cima, com a facilidade de quem faz isso várias vezes por dia. Então, migramos pra tarefa principal. Dalva abre a fralda do meu pai, me passa uma espécie de pano e diz:

“Manda ver. É a oportunidade de retribuir o favor.”
“Que favor?”
“Ele te limpou quando você era criança, né?”
”Acho que sim. Ele não era desses que deixa tudo pra mulher.”
“Que bom.”
“Na verdade, ele tomava conta de tudo. Minha mãe não precisava nem se lembrar de pegar a carteira antes de sair de casa. Ele ficava perguntando: pegou isso? Pegou aquilo? Trancou a porta? Fechou a janela?”

Dalva sorri maliciosamente: “Você tá enrolando.”

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