Não demorou muito pra me acostumar com o clima na sala do pós-operatório. O falatório, o som da banda Calypso (ou algo assim) tocando no rádio de um dos pacientes dividiam minha atenção com a meditação.
O rádio era a única companhia do caminhoneiro do canto direito. Todos os outros tinham acompanhantes. Pelo menos, foi o que ele (mais ou menos) me disse, num tom de voz grave e meio grogue:
“Pra quê? Preciso não” – de companhia, quis dizer. Não tento debater.
“Por que você tá aqui?”
“Tô doente”.
“Já percebi. Mas do quê?”
“De cirurgia”.
Entendo que o homem não quer conversar e me preparo pra voltar a praticar. Sou interrompido pelo caminhoneiro do fundo esquerdo do quarto:
“Tava com pedra na vesícula, esse desgraçado”.
Não sei bem o que dizer. Nem preciso, ele continua:
“Ele é mais falante depois da janta”. E aponta pro meu pai: “Não é que nem esse aí, que nem se mexe.”
Sorrio amarelo:
“Como é seu nome mesmo?”
“Waldemar. Essa é a Cida, minha mulher”.
“Escrava, você quer dizer, né?”, ela responde olhando pro homem, que aparentar ter o quê, uns 70 anos?
“Ela tá brava porque já é a terceira vez nesse mês que eu interno”.
“Tô brava, não. Já acostumei com hospital. Vejo mais você nesse jaleco do que em pijamas”.
Waldemar me olha com uma expressão meio maníaca:
“Fui internado umas 15, 20 vezes no último ano”. Ele fala como se isso fosse uma conquista.
“Então o senhor tem alguma doença crônica?”
A mulher é que responde: “Azar crônico”.


