Este texto faz parte da seção Off-Line, que traz experiências e observações sobre o mundo fora das telas.
Como bom geek, dei uma espiada no lançamento da Artemis II. Claro, as viagens espaciais são uma das mais conhecidas formas de entretenimento mantidas pelos EUA. Mas não vou reclamar. O assunto é outro: eu costumava brincar que, um dia, os astronautas estariam ali, fazendo uma baliza na Lua, e encontrariam outro veículo de viagens interplanetárias, o 917H-10.
Nunca ouviu falar? É o destemido, o monumental Terminal Pirituba / Metrô Vila Mariana. Segue um vídeo com cenas de uma das suas missões diárias. Essas os jornais não acompanham ao vivo.
Para conhecer São Paulo, é só embarcar. O itinerário deve ter sido planejado pela NASA: os perifenautas saem da zona noroeste da cidade e (após cruzar uns 15 bairros, ruas tortuosas, ladeiras íngremes, curvas fechadas, enchentes), três horas depois, chegam à região central. Jornada do herói.
Quando adolescente, fazê-la era como visitar outros planetas. Eu tinha que me preparar, usar roupas específicas (de ir “para a cidade”) e me acostumar com diferentes climas. As pessoas tinham sotaques, aparências e comportamentos diferentes conforme o ônibus ia se aproximando da Avenida Paulista. No mínimo, “embranqueciam” e “desnordestizavam”. Certos lugares até me pareciam proibidos, como se não merecesse estar ali. Ninguém me proibia, eu só sentia essas coisas.
Aliás, poderia gastar horas falando sobre cada trecho da viagem. De alguma forma, qualquer atividade me levava ao 917H-10: amores, bandas, amigos, shows, trabalho, CEASA, comprar roupas, saúde, etc. Tudo ficava ao longo desse trajeto infinito e surreal.
Não sei se isso faz sentido para alguém fora de SP ou que não conheça a vida antes da Internet. Eu precisava ir até “o centro” para receber as bênçãos da cultura. Tinha que correr da polícia e dos bandidos, não dos algoritmos.
Passava os dias participando de promoções da TV Mix ou da Brasil 2000 FM. Às vezes, ganhava um disco, um ingresso ou uma camiseta. Cruzar a cidade no 917H-10 para buscá-los era um momento triunfal. A Gazeta fica na Paulista, a Brasil 2000 era perto da Av. Doutor Arnaldo, a 89 FM no Paraíso, como o Centro Cultural. Eu estava fadado a circular por essa rota, como os astronautas a dar voltas na Lua.
Hoje, me aposentei do 917H-10 (que continua firme e forte). Mas ainda não perdi o hábito de circular em troca de cultura. Só que agora pelo YouTube, Substack e outros sites. Parece que circular é um velho hábito pegajoso, dos bairros ao samsara. Nisso, sou um dos “Missions Specialists“. Por enquanto.

