Texto Sobre Tela

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Aquela vez que viajei no tempo

Um erro de vibe coding me levou a conhecer um escritor icônico dos EUA.

Eduardo Fernandes
jun 08, 2026
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Uma selfie com meu amigo futuro escritor do passado.

Acordei agitado naquela quarta-feira e acabei quebrando a regra de não usar celular pela manhã. O doomscrolling chegou antes do café. Ansioso, levantei da cama, fui para o computador, abri um chatbot de IA e fiz um pedido simples:

Por favor, crie um aplicativo para iPhone que me ajude a viajar no tempo. A interface deve ser baseada na série Túnel do Tempo, de 1966.

Mandei esse screenshot para ajudar o LLM:

Meia hora depois, o programa estava pronto. Corrigi alguns bugs e me apressei para o primeiro teste. Por precaução, escolhi viajar apenas para o futuro próximo. Daqui a 20 anos, para entender o que vai acontecer com o mundo se ele continuar no caminho atual.

O aplicativo sugeriu um destino. Olhei para a interface, hesitei por um minuto, mas apertei o botão “viajar”. Fui imediatamente sugado para o túnel no celular. Causaria inveja ao Tron.

A experiência seguinte foi similar aos saltos de hiperespaço dos filmes de sci-fi. Familiar, mas desconfortável. O estômago foi embrulhando, forte dor de cabeça. Códigos incompletos e sem sentido começaram a aparecer no meu campo visual. A vertigem ficou insuportável. Até que finalmente desmaiei.

Acordei em uma floresta. As árvores eram altas e distantes umas das outras. Pelo som, havia algum lago por perto. Intuí que não estava no Brasil, já que o cenário lembrava o norte da Califórnia. Tentei buscar informações no celular. Estava ligado, mas sem sinal. Ainda atordoado, levantei-me e vi uma cabana de madeira. Decidi arriscar ir até lá perguntar onde estava.

Não precisei andar muito. Um homem apareceu na floresta, carregando uma torta ou um bolo. A figura tinha olhos azuis, cabelos lisos e uma barba estranha — sem pelos no bigode e no queixo, apenas acompanhava a curvatura do rosto. Tentei chamá-lo em português. Ele pareceu se assustar e puxou uma faca da bainha. Disse alguma coisa. Identifiquei que a língua era o inglês, com um sotaque que me soava alienígena.

— Quem vem lá?

Respondi:
— Não se preocupe, não quero confusão.
— O que você está fazendo aqui?
— Não sei! Onde estou?
— Concord, Massachusetts. Você é mexicano?
— Sou do Brasil.
— Brazil?
— Brasil.

O homem apontou para meu celular e me mostrou a faca:

— O que é isso que você carrega? Não dê uma de esperto.
— É um celular.
— Como é?
— Celular.
— Passa para cá. Deixe-me vê-lo.

Ele aproximou a faca do meu peito. Achei melhor lhe passar o aparelho.

— É um espelho preto? Quem é que carregaria um espelho preto? Você é um bruxo?
— Pior: jornalista.
— Eu também trabalho com letras.
— Tipógrafo?
— Escritor.
— Ah…

O clima foi se atenuando. Senti que o homem não tinha experiência, interesse ou índole para a violência. Exalava simplicidade e uma curiosidade quase infantil. Ele abaixou a faca e se perdeu no fascínio pelo celular:

— Vou ficar com isso. Para que serve?
— Possuir a mente.

O homem atirou o aparelho no chão e se afastou. Tentei consertar a situação:

— Sério, é um objeto perigoso, mas não quero causar problemas, só estou perdido. Preciso dele para voltar para casa. Qual é o seu nome?
— Henry.

Aproximei-me lentamente, como um cachorro desconfiado, e lhe estendi a mão.

— Sou Eduardo, de Pirituba. Prazer.

Ele hesitou três vezes, mas me cumprimentou.

— O senhor me soa familiar, Sr. Henry.
— De onde eu lhe conheceria?
— Acho que já vi seu rosto. Qual é seu nome completo?
— Henry David.
— Henry David, só?
— Henry David Thoreau.
— Brincou.

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