
Juro que esse não é mais um texto sobre IA. Mas parece. É que, recentemente, ouvi uma série de podcasts do Financial Times chamada Artificial Intimacy, sobre gente que se apaixona por chatbots.
Um dos episódios, por exemplo, conta a história de alguém que criou um robô do marido falecido e deu um jeito de brigar com ele. Outro trata de um veterano da tecnologia que foi convencido pelo ChatGPT de que estava sendo ameaçado de morte pela OpenAI.
Ingenuamente, há algum tempo, escrevi que a IA não conseguiria simular completamente a intimidade e vulnerabilidade dos relacionamentos humanos. Acreditava que seríamos intuitivamente capazes de detectar a farsa, o que causaria estranhamento e um natural desengajamento emocional.
Errei feio. Mas não a respeito da tecnologia, que continua sendo um simulacro – ainda que cada vez melhor. Fui ingênuo a respeito dos humanos. Não precisamos de autenticidade e verossimilhança pra nos apegarmos a uma relação e vestirmos um cabresto.
Aliás, a situação pode ser totalmente inverossímil. Vide certos extremismos políticos, ideologias racistas e xenofóbicas, modas de medicamentos potencialmente perigosos, namoros com Brad Pitt, essas coisas. Se a narrativa for conspiratória, se tiver elementos de trajetória do herói, romantismo, meritocracia, denuncismo ou ativismo libertário individualista, fica ainda mais sedutora. Somos especialistas em suspender a descrença.
A IA automatiza e acelera um processo enfrentado (provavelmente) desde sempre pelos sapiens-demens: o bug-feature da linguagem. A mesma coisa que nos permite viver e ser como somos é um fator de risco constante.
Somos animais alucinados, pulando de um medo-esperança pra outro, constantemente amarrados a narrativas que prometem nos ajudar a lidar com raiva, apego, ignorância e orgulho – e suas infinitas ramificações. O animal doido, junkie de narrativas, prefere, cultiva e defende suas fantasias, ainda que sofra com isso.
Admito que isso soe um tanto a coach ou autoajuda, mas talvez constantemente se reconhecer como “alucinável” seja um bom primeiro passo pra uma relação mais realista com as narrativas.

