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Câncer de Trópico

Câncer de Trópico 12: Amizades fluidas

O que acontece no hospital fica no hospital.

Eduardo Fernandes
fev 08, 2026
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Sobrevivemos a mais uma noite na sala do pós-operatório dos caminhoneiros. A manhã começa como sempre: a gangue dos médicos chega, com seus papéis. Dessa vez, vai direto ao meu pai.

Os médicos e estudantes me cumprimentam e, por alguns minutos, me sinto humano. Mas, antes que possa aproveitar disso pra enchê-los de demandas, volto a ser uma decoração na sala, enquanto eles debatem sobre termos técnicos.

Pra minha surpresa, meu pai interrompe a reunião do grupo. Diz que está com muita dor: nove na escala de dez. Corrijo: se ele está reclamando, deve ser dez de dez.

A enfermeira diz que, ontem mesmo, aumentou a dose de algo chamado Tramal. Uma das residentes nota que meu pai começa a apresentar manchas vermelhas na pele. O debate continua firme, enquanto continuo na minha ignorância de acompanhante.

“Ele deve ser resistente ou ter algum nível de alergia a morfina”, um dos médicos me diz.
“Tá. Mas e esse Tramal, não tá fazendo efeito?”
”Tem morfina na composição”.
“Ahh. Entendi.”
“Vamos trocar por metadona”.

A palavra metadona me leva direto aos meus anos de formação. Todos esses filmes sobre junkies que assisti, essa obsessão do cinema dos EUA com armas e drogas. Tão estranho ouvir essa substância associada ao meu pai, que nunca sequer vi bêbado (e que, quando eu voltava de alguma balada, me parava na porta e só liberava a minha entrada depois de cheirar meu hálito, como um pai bafômetro). Enfim, nos filmes, a metadona quase sempre aparece como uma droga que o viciado usa pra começar a se recuperar. Portanto, inconscientemente, metadona me soava a esperança.

Por pouco tempo. O médico olha diretamente pros olhos do meu pai e diz:

“Olha, vai demorar uns dias pra fazer efeito, tá?”

Solto a pergunta óbvia: “Então é dor até lá?” O doutor confirma com a cabeça. Meu pai vira a dele pro outro lado do quarto.

“Desculpa, doutor, mas por que demora esse tempo todo pra descobrir como parar a dor? Meu pai tá reclamando faz dias.” O médico não responde.

Logo, não somos mais o centro das atenções. Arrisco passar as mãos nos cabelos do meu pai. Ele não resiste e fecha os olhos.

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