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Agente indiscreto

Como o Google está tentando mudar a cara da internet.

Eduardo Fernandes
mai 27, 2026
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Paula é professora de inglês numa escola de ensino médio. Após um dia inteiro tentando engajar os alunos (que estavam mais interessados no Instagram), finalmente está em casa, prestes a mergulhar no sofá. Ela olha para os tênis de corrida na porta do apartamento. A janela está aberta. Na rua, o vento leve faz as árvores emitirem um som contínuo e suave. Paula se imagina colocando a roupa de academia, mas acaba olhando o celular.

As notificações hostis do grupo da família e o lixo automático do Instagram causam ojeriza. Ainda assim, ela clica no ícone de câmera. Imediatamente, aparece um vídeo claramente criado por IA. Paula sente vergonha de si mesma e abandona o aparelho.

Acaba lembrando que precisa agendar um voo para a próxima semana. Ela se senta ao computador e abre o Google. Agora, ele é um chatbot de IA. Na interface, está escrito: “A Paula voltou!” Ela sabe que há um aplicativo do outro lado. Dane-se, ele parece mais amigável do que o WhatsApp. Paula lhe explica os planos da viagem via áudio. O agente de IA caça o melhor voo, confere a Google Agenda e já se oferece para comprar a passagem com os dados do Google Wallet. Enquanto isso, no Gmail, chega uma newsletter sobre a série favorita de Paula. Outro agente percebe e resume o conteúdo. Então, Paula pergunta ao chatbot mais detalhes sobre o assunto.

De repente, tanto a corrida quanto o Instagram parecem tão obsoletos.


Reclamar das redes sociais deixou de ser uma prática para críticos de tecnologia. Agora, está quase virando conversa de boteco. Ainda assim, não largamos o osso, nem conseguimos encontrar alternativas. Governos patinam para regulá-las, engenheiros ainda aceitam desenvolvê-las e criadores se sentem obrigados a usá-las. Enquanto isso, outra força está transformando a internet: a IA. Mas não só os chatbots. O verdadeiro salto vem do avanço dos chamados “agentes”.

Agentes são softwares (nada secretos) capazes de agir em nome dos usuários: entram em sites, leem e respondem e-mails, agendam compromissos, preenchem formulários e cuidam de tarefas que queremos evitar. É um fenômeno que nasceu de experimentos da Anthropic, OpenAI e Manus (chinês, hoje parte da Meta), mas se popularizou com o OpenClaw, open source e instalável localmente. Hoje, o mercado conta com várias outras opções, como Hermes e o fofolete OpenHuman. As grandes empresas de IA se adaptaram rapidamente e passaram a oferecer versões ainda mais sofisticadas desses sistemas.

Contudo, o momento simbólico da virada para o que pode vir a ser uma nova interface da internet aconteceu em 19/05 de 2026, no Google I/O. A empresa — que já concentra nossos e-mails, calendários, documentos e buscas — anunciou que vai nos levar de vez para a era dos agentes. Lançou o Gemini Spark, que roda 24 horas em máquinas virtuais do Google Cloud e se integra ao ecossistema da empresa. Assim, o usuário do Google não precisará enfrentar processos difíceis de configuração para obter automações como Daily Brief (resumo de Gmail + calendário + tarefas) e Information Agents (monitor de assuntos).

Até mesmo a busca mudou. Se o Google já estava nos acostumando gradualmente com os resumos de IA nos seus resultados, agora tenta resolver tudo numa única interface, sem linkar para sites externos. Tudo indica que, em poucos meses, muita gente estará usando os agentes do Google cotidianamente, mais por inércia do que por escolha consciente.

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