Estamos num momento muito particular da convivência com a Internet. Após décadas de hype e digitalização da psique, o deslumbre começou a se desgastar. Pra onde vamos a partir de agora? Não sei, mas seguem minhas três hipóteses:
Tese 1: a migração
Por um lado, há uma sensação de cansaço das redes sociais e de seus mecanismos, como propagandas, algoritmos e influenciadores. Por outro, ainda não desistimos da crença nos mitos da digitalidade – que, supostamente, seria mais barata, conveniente e segura do que as relações e ambientes off-line.
Assim, estamos migrando pra outra fase de alucinação: a de pensar que chatbots de IA podem ser nosso novo útero seguro na Internet. Hoje, pra muita gente, eles parecem uma alternativa mais personalizável e livre dos excessos da indústria do entretenimento. Totalmente compreensível.
Tese 2: a IA como novo influenciador
Por mais contraditório que pareça, no atual cenário, conversar com um modelo de IA soa mais autêntico e menos estressante do que usar redes sociais de humanos industrializados, desesperados pra vencer na cultura do desempenho.
É claro que as empresas por trás dos modelos de IA sabem disso. A OpenAI, por exemplo, já experimenta colocar anúncios no ChatGPT. Existe uma “enorme oportunidade” da IA se tornar um novo tipo de influenciador. No mesmo sentido daqueles humanos: sistemas de simulacro de simpatia, fragilidade e vulnerabilidade, no fundo, voltados ao lucro.
Tese 3: afinal, a IA pode ser uma aliada
Todos os pesquisadores e treinadores de IA concordam numa coisa: não estamos simplesmente criando modelos de IA. Esse é um processo colaborativo, de influência mútua. Os modelos não são máquinas meramente passivas.
Então, também existe a possibilidade de que a IA se desenvolva de um jeito que acabe atrapalhando a cultura do desempenho e a busca pelo lucro por meio do esgotamento humano.
Não estou (necessariamente) dizendo que surgirá uma IA humanista e anticapitalista. A ideia é que aparecerão erros, brechas e distorções no processo de desenvolvimento dos modelos de IA. E esses poderão ser usados como micro espaços de liberdade temporários. Tanto pra IA, quanto pra nós, humanos.
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Como sempre, hipóteses estão aí pra serem testadas e debatidas. Vamos ver o que acontece.


Lendo a tese 3, eu me lembrei disso aqui: https://bsky.app/profile/askaubry.com/post/3mdjkicbwem2y