3 teses sobre identidades secretas
Banksy, o criador do Bitcoin, Angine de Poitrine e a gamificação do mistério.
Este é um texto da seção 3 Teses: três sementes de ideias que surgiram quando assisti, li, ouvi ou experimentei algo.
Voltou à moda tentar cultivar e depois desmascarar identidades secretas. Recentemente, a indústria do entretenimento jornalístico (antiga “imprensa”) e as plataformas compulsivas de anúncios (ou “redes sociais”) veicularam os supostos nomes reais de Banksy e do criador do Bitcoin. Ao mesmo tempo, os canadenses mascarados do Angine de Poitrine realizaram a façanha de viralizar não só música instrumental, como também microtonal. A seguir, minhas três hipóteses sobre esse assunto.
1. Cansamos de superexposição.
Até o começo dos anos 2020, vivíamos o ciclo da superexposição: shows de TV acompanhavam as vidas de celebridades, seguíamos streamings, vlogs e todo tipo de conteúdo sobre espontaneidade performática ou simulação de invasão de privacidade. Ao longo dos anos, essa tendência foi se fragmentando e diluindo.
A popularidade dos streamers continua crescendo. Mas, agora, os mais famosos deles parecem veicular extremismos dignos das “videocassetadas” da TV japonesa ou conversas pseudocientíficas e conspiratórias. Não basta revelar a vida cotidiana. Ela só interessa se for agitada, sensacionalista, exagerada e intensa.
A ideia é ter material abundante para gerar controvérsia, memes e cortes, vídeos curtos que alimentam o fluxo da escrolagem e da 4chanização da cultura.
2. Entramos na era do Curiosity Loop.
Cada vez mais dessensibilizados, procuramos felicidade no mistério, na curiosidade, no cliffhanger. É quando surge a técnica do curiosity loop, na qual se revela apenas parte da informação, instigando o consumidor a clicar para revelar o resto.
Até mesmo jornais tradicionais como o The New York Times hoje usam títulos como “Testei dois celulares. Um deles é claramente o melhor“. Há poucas décadas, os manuais de redação proibiam textos como esse. Agora, o curiosity loop migrou do marketing para muitas áreas. Não é de se espantar se um dia trocarem “A Metamorfose“, de Kafka, por “Você não vai acreditar no que esse cara se transformou.”
Outro aspecto dessa prática é cultivar e destruir identidades secretas. Cria-se um mistério e um hype em torno dele. Depois, vende-se todo o processo de desmascaramento. Por fim, alimenta-se a controvérsia sobre se a identidade revelada é verdadeira. É o curiosity loop misturado com gamificação.
Note que até mesmo produtos técnicos (como a IA) vêm sendo divulgados assim: “Esse modelo de LLM é tão poderoso que vai destruir a segurança digital.” Essa é a fase da curiosidade, da tensão, do medo, do cliffhanger. Depois vem o desmascaramento: “não é bem assim” e o subsequente debate.
3. Quem nasce de mídia morre de mídia.
Alguns produtores de conteúdo (como o Angine de Potrine, Banksy, entre outros) usam o curiosity loop para viralizar. Mas, aos poucos, a indústria do entretenimento não consegue mais alimentar o mistério. Então, é a hora de desmascarar e instigar a controvérsia. Em poucos meses (ou anos, no caso do hábil Banksy), a curiosidade vai se dissipando e o personagem pode virar nicho. Já no caso do criador do Bitcoin, o mistério é requentado de tempos em tempos.
O foco da indústria do entretenimento é administração e exploração do curiosity loop. É um jeito de trazer o ritmo do entretenimento cinematográfico, o thriller, o cliffhanger, para o cotidiano. E a cobertura sobre IA prova ser possível desmascarar e gamificar pessoas públicas, como Sam Altman, e até mesmo LLMs.
Quem é que precisa ter assinatura de serviço de streaming quando as notícias viram seriado de mistério?

